Nossa Rota

Experiência Egípcia II

Postado por | Postado em Blog do Marô | em 23-05-2011

Fui enganado, de novo! Dessa vez foi engraçado porque eu previ o desfecho. Quando embarquei no velho trem de Luxor, no sul do Egito, para o Cairo, fui chamado pelo responsavel pelo vagão de passageiros, ou algo assim. Me chamou para o lado e mostrou-me uma cabine com 3 poltronas vazias. E disse. “You go sleeping”. Apareceu outro funcionario, talvez o fiscal, fazendo uma cara de aquiescência. Eu disse, para ser bem pragmatico: “Sleep. Cairo. Ok?”. E aquelas caras arabes desfizeram-se em mesuras. “Yes, yes, yes”. Dei uma gorjeta para os dois picaretas e fui deitar nos tres lugares. Eles seguraram os assentos ate um pouco mais da metade da viagem (um total de 9 horas). Quando os miseraveis trocaram o turno, quando mudaram os funcionarios, fui tocado varias vezes na perna ate tomar um susto ao acordar vendo um barbudo arabe reclamar um assento para si. Mas eu sabia… Acordei mal humorado, mas acabei dando risada.

Aprendi a dizer 3 coisas em arabe. Tornam-se naturais depois de 2 semanas no Egito. Primeiro, Shukran, que significa, obrigado. Depois, Baksheesh, gorjeta. E Habib, querido. Quando um desses ambulantes seguram um turista pelo braço e fala: “You are MI habib”, sai de baixo! E se falar: “Baaarazil, good beoble”, corra.

Me sai muito bem de uma nova tentativa ousada de vendas. Ouvi um tipo gritar de uma maneira especial: “Baarazil, I know you”. Eu pensei, esse cara quer o que? Ai ele me pegou pelo braco e falou aquelas malditas palavras do paragrafo anterior. Ja nao posso ver essa gente trocando o P pelo B que lembro da figura. De repente, sou puxado 90 graus a direita e entro num imenso bazar. Eu tentei dizer que ia ao museu egipcio, mas o cara me levou pelo braço dizendo que o museu estava fechado para turistas naquelas proximas horas. Uma lorota danada. Havia um velho com cara de sabichão atras de uma mesa bem ornamentada de motivos egipcios. Pensei: vou ter que acionar o plano b. Enquanto eles foram servir um cha, eu pulei da cadeira e em mais 5, 6 passadas esquivas, me pirulitei da loja. Que suplicio! Olhei para tras e vi a dupla, um gesticulando com bracos desesperados; outro, mostrando-me o copo de cha e um pires. Sai correndo, atravessei a rua e não olhei mais para trás.

A comida é muito boa aqui no Egito. Um amigo me perguntou se comi alguma coisa inusitada por aqui, mas digo que não tem muita variedade. Sim, comi uma carninha de camelo e isso me pareceu estranho, deveras. Eles comem numa sequencia estranha aos nossos modos brasileiros. Primeiro, antes de mais, uma cestinha de pao arabe (aquele, arrendondado) com homus ou alguma outra pastinha do genero. Depois uma sopa, geralmente de lentilhas. Uma saladinha tipo tabule, com pepinos, tomates, cebolas e ervas, para acompanhar. Logo, o prato principal: carne de carneiro, frango, vaca ou pombo (isso mesmo). Porco, ja sabem, ne? Pais muculmano. Tudo com arroz, sempre. Pensando bem, ate que se parece um pouco com o nosso jeito: arroz, carne e salada. Descobri algumas alternativas porque comer nesses restaurantes sai um pouco caro. Um sanduiche grego ou uma massa local também é uma boa pedida para os orçamentos mais apertados.

O Islã. Li um pouco mais sobre o assunto, mais para conhecer do que para evitar vexames. Existem 5 regras basicas do praticante. 1) Crer em Alah, unico Deus, e em Maomé, seu profeta. 2) Rezar 5 vezes ao dia. 3) Ser generoso e dar esmolas aos pobres. 4) Jejuar durante o ramadã  (1 mes no periodo do dia, enquanto há luz solar). 5) Ir a Meca pelo menos uma vez na vida. Acho que o mais trabalhoso são as rezas. 5. A primeira tem que ser realizada antes do nascer do dia. Que coisa! Os homens não casam até atingir uma idade mais avançada, 26, 28, 30. Digo avançada porque não casar aqui significa não transar. Umas das primeiras perguntas que os egipcios nos fazem é se temos mulheres, se somos casados. Parece-lhes muito estranho um homem de 37 anos, solteiro. Eu disse para um tipo que no Brasil a gente não se casa antes dos 50. O cara parou de conversar comigo. Talvez tenha imaginado como seria passar meio século donzelo.

Tive que voltar para Hurgada, no sul do Egito. Os ventos não deixaram o Vaga partir e ainda iria demorar até eles chegarem aqui em cima. Voltei de ônibus pela costa que iríamos subir em alguns dias. Cheguei a ver os inúmeros navios que cruzam nas duas direções o Canal de Suez. O mar estava encarneirado, com muito vento. Imaginei que a nossa jornada seria dura. Aleixo Belov, em seu segundo livro, relatou que foi no golfo de Suez onde pegara um dos maiores e tormentosos mares de toda sua vida. Ainda tínhamos que vencer os 250 km que separavam-nos do Canal.

Travessia: Hurgada – Suez

Cheguei e no outro dia começamos a velejada. Embarcamos outra tripulante. A inglesa Debbie. Agora, com o Vaga bem abastecido, equilibrado, fomos para o norte. Saimos com ventos fortes, mas o objetivo era ancorar no final da tarde numa pequena ilha paradisíaca. Pegamos um pequeno peixe e foi só. No outro dia, iniciamos a navegação bem cedo, mas os ventos não deixaram o Vaga avançar muito. Paramos novamente, e dessa vez, por 2 dias. Encontramos 2 barcos que faziam o mesmo percurso e estratégia. Um francês e outro malaio. Fizemos um churrasco de confraternização e tomamos Stella, a cerveja local.

Depois desse longo descanso e uma tentativa frustrada de sair, zarpamos com o sol nascente e um mar bem calmo. Atravessamos para a outra margem e cruzamos a estrada dos navios. O mar estava calmo e conseguimos passar sem problemas. O vento não demorou em aparecer, e veio com força extrema. Paramos numa ancoragem horrível depois de lutar com vento e onda por 6 horas seguidas. Ficamos nesse porto 3 noites, presos pelo mau tempo. Nossos estoques começaram a baixar e tentamos ir até a praia para reabastecimento. Era uma ancoragem militar. Ficamos de castigo enquanto os atrapalhados soldados da guarnição esperavam o oficial para ver o que aconteceria conosco. O capitão chegou e graças a Deus era um tipo jovem e bem humorado. Deu um sermão na tropa, mandou-os encherem nossos garrafões d´água e pediu muitas desculpas. Voltamos com água, mas sem comida. Tínhamos que enfrentar o mar e o mau tempo.

Partimos com muito vento e tivemos que parar novamente em outra péssima ancoragem. Esperamos pacientemente mais 2 noites até que finalmente yemanjá deu uma boa trégua. Navegamos 1 dia e 1 noite com o mar calminho, uma piscina. Chegamos em Suez no início de uma manhã muito bonita, calma e tranquila, como a muito não via no Mar Vermelho.

Como o fez Moisés, também cruzamos o Mar Vermelho. Deu mais trabalho para o Vaga do que para ele, acredito. Enquanto ele atravessou o estreito mar em sua largura, fizemos mais de 2000 km desde o estreito de Bab El Mandeb até Suez. Agora, o canal fica estreitíssimo e não há mais perigo de ondulações. São 160 km até o Mar Mediterrâneo.

Acertamos os trâmites do Canal e fizemos a primeira parte até Ismalia em 8 horas de navegação. Para mim, atravessar os dois canais mais famosos do mundo, sendo o primeiro o do Panamá, é um privilégio. Uma façanha. Acredito que dificilmente voltarei a fazer essas travessias, ainda mais a bordo de um barco a vela. São dois dias inteiros de navegação. Um piloto egipcio foi conosco até Ismalia, e outro, irá até o final, em Port Said. Encontramos alguns amigos velejadores que também esperavam para fazer a última parte do trajeto. Os veleiros atravessam logo depois do comboio de navios. Pegamos um comboio inteiro que vinha do lado contrário. Fiquei impressionado com o tamanho dos cargueiros, e mais ainda com a audácia daqueles piratas somalianos, que atacam e sequestram embarcações desse tipo.

Fomos até as Pirâmides, em Gizé. Pela segunda vez visitaria os túmulo de Quéops, Quéfren e Micherinos. Mano, um galego amigo da gente, também foi com o grupo. Alugamos um carrinho em Ismalia e fomos os 5, aboletados no pequeno veículo, por 2 horas através do transito maluco do Egito. Reparamos que quase 100% dos automóveis daqui são batidos. Também…

Estamos no paralelo 30 N. É a primeira vez que navego em águas tão setentrionais. O tempo aqui é bem diferente das regiões tropicais, muda com muita velocidade, e os ventos sopram com muito mais força. Imprevisível. O que significa, basicamente, que não é bom ficar muito tempo no mar. Penso que faremos travessias curtas até Gibraltar. Egito – Chipre – Turquia – Ilhas gregas – Sicília (Itália) – Sardenha (Itália) – Maiorca (Espanha) – Menorca (Espanha) – Ibiza (Espanha) – Málaga (Espanha) e Gibraltar.

Hoje é dia 23 de maio de 2011. Amanhã o piloto do Canal chega às 5 da manhã e começaremos nossa subida até a Europa. Não vamos parar em nenhum outro porto egípcio no Mediterrâneo. Vamos direto para o Chipre,uma ilha que é metade grega, metade turca. Serão mais de 50 horas no mar, mas as previsões são as melhores e o Vaga está bem preparado e abastecido para essa travessia. Agora, aguardem notícias helenas…

Comentários

Existem (2) Comentários para Experiência Egípcia II

  1. Irado Marô!!!
    Parabens irmao!!
    Abraco aqui da tripulacao do Canela!!

  2. Quando estiver em Roma manda um alo que te damos guarita por aqui.

    Abraços

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